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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Quase um discípulo


Não foi difícil renunciar
Às coisas podres que eu amava;
Até gostei de abandonar
A noite fria em que andava.

Mas era pouco…

domingo, 30 de setembro de 2018

Cronologia da morte e ressurreição do Senhor

Observação: Apêndice de um estudo detalhado sobre as Sete Solenidades de Levítico cap. 23. As considerações abaixo só farão sentido se lembrarmos que o “dia” judaico começa com o pôr-do-sol. Assim o dia 14 de Nisan (dia da Páscoa) termina quando o Sol se põe (18h00 mais ou menos), e aquela noite já é considerada o dia 15.


domingo, 17 de junho de 2018

As Sete Solenidades do Senhor

Levítico cap. 23 começa assim: “As solenidades do Senhor, que convocareis, serão santas convocações; estas são as Minhas solenidades”. Em seguida são listadas sete datas especiais que Israel deveria celebrar todo ano. Pode parecer só uma lista de festividades antigas, que não tem nada a nos ensinar — mas temos aqui um tesouro de ensino!

(Ouça uma série de pregações sobre este assunto clicando aqui)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Rasgado!


Em Mateus caps. 26 e 27 vemos que, naquele dia tão solene da crucificação, houve três ocasiões diferentes em que algo foi rasgado.

sábado, 28 de outubro de 2017

Hinos novos ou traduzidos

Faz vários anos (trinta, para ser exato) que venho tentando adaptar alguns hinos do inglês para o português. Recentemente achei interessante compartilhar estas tentativas com outros irmãos e irmãs. Algumas igrejas no Brasil estão usando alguns destes hinos em suas reuniões, e quem sabe sejam úteis para outros também.

sábado, 26 de agosto de 2017

Um tributo a Ronaldo Watterson


Em janeiro de 2017 estive na Irlanda do Norte com minha família por algumas semanas, e os irmãos da igreja local que se reúne na Av. Cambridge, em Ballymena, me pediram para falar sobre alguns aspectos da vida de meu pai. Eles separaram uma de suas reuniões de sábado à noite (destinadas principalmente aos jovens) para esse propósito, e foi sugerido o título: “A fé dos quais imitai …” (Hb 13:7).

sexta-feira, 11 de março de 2016

Pregações em áudio

Esta página contém links para algumas gravações de pregações feitas em diversos locais do Brasil, gravadas por outros irmãos e repassadas a mim depois. Quem sabe podem ser úteis a alguém.

Ao clicar em qualquer um dos links, abrirá uma janela com o arquivo de áudio. Será necessário clicar na seta para iniciar o áudio.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Figuras das igrejas locais no Éden


O jardim do Éden, onde Adão e Eva habitavam antes do seu pecado, era o paraíso de Deus aqui na Terra. Um local perfeito, onde o homem podia viver em comunhão, também perfeita, com seu Deus. Uma igreja local é, da mesma forma, o local onde Deus hoje procura ter comunhão com Seus filhos, coletivamente. O NT descreve uma igreja local como sendo um santuário onde a santidade de Deus pode ser apreciada (I Co 3:16–17), a casa onde o Altíssimo pode habitar com Seu povo (I Tm 3:14–15), a congregação onde o Senhor pode governar (Mt 18:20). Podemos dizer que uma igreja local é um paraíso aqui na Terra, um oásis no meio deste deserto em que vivemos. Nada mais coerente, portanto, do que procurar semelhanças entre estes dois “paraísos”, entre o local onde Deus teve, pela primeira vez, comunhão com o homem, e o local onde, hoje, Ele procura tal comunhão.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O maná e a vida de Cristo

Muito já foi escrito acerca das diversas lições que o maná nos ensina sobre Cristo. Nesta pequena meditação quero destacar a maneira como o maná foi chamado na Bíblia (seja pelos homens, seja por Deus). Temos sete nomes diferentes para descrever o maná:

  1. Pão dos Céus (Êx 16:4);
  2. Maná (Êx 16:15);
  3. Pão vil (Nm 21:5);
  4. Trigo do Céu (Sl 78:24);
  5. Pão dos anjos (Sl 78:25);
  6. Comida espiritual (I Co 10:3);
  7. Maná escondido (Ap 2:17).

O mais impressionante desta lista é perceber como estes títulos, na ordem em que aparecem nas Escrituras, apresentam um resumo cronológico do relacionamento de Cristo com os homens. Os primeiros quatro descrevem Sua trajetória dos Céus até o Calvário, e os últimos três resumem Seu ministério presente. Como são perfeitas as Escrituras! Quando Deus inspirou Moisés a escrever Êxodo cap. 16, Ele já tinha em vista o texto de Apocalipse 2, e distribuiu estes sete títulos pela Sua Palavra desta forma tão perfeita.

Sem tomar muito espaço para desenvolver este assunto, repare resumidamente os paralelos entre a lista de sete títulos acima e a vida do Senhor Jesus.

O primeiro título, Pão dos Céus, lembra-nos que Cristo veio dos Céus para habitar entre nós. Para muitos Ele era de Nazaré; alguns poderiam afirmar que Ele viera de Belém; na realidade, Ele veio do Céu.

O segundo título (“maná”) indica espanto e surpresa. A exclamação dos judeus quando viram o maná pela primeira vez (“Que é isto?”, Êx 16:15) é, no hebraico, “Maná?” Surpresos ao ver algo totalmente diferente, eles disseram: “Maná?”, ou, em português: “Que é isto?”, e esta expressão acabou se tornando o nome mais conhecido deste alimento. O espanto dos judeus é, até certo ponto, normal (afinal, nunca antes alguém vira maná), mas é também, injustificável (pois Deus havia avisado no dia anterior que lhes daria pão do Céu). A verdade é que, por esquecimento, ou por desprezo, ficaram espantados quando viram o maná.

É exatamente isto que aconteceu com o Senhor quando Ele veio ao mundo. Apesar da Sua vinda ter sido amplamente profetizada, e do povo de Israel aguardar ansiosamente a vinda do Messias, quando Ele finalmente veio, ficaram espantados. Os principais dos judeus admiraram a Sua inteligência e respostas quando Ele tinha doze anos (Lc 2:47). Os habitantes de Nazaré, que conviveram com Ele durante toda a Sua infância e juventude, quando O ouviram pregar pela primeira vez “se maravilhavam … e diziam: Não é este o Filho de José?” (Lc 4:22). A maneira como Ele nasceu e viveu, a maneira como Se comportou, a maneira como pregava, as pessoas com quem andava, tudo foi motivo de espanto para aqueles que deveriam estar preparados para recebê-lO.

Quando passamos para o terceiro título (“Pão vil”) somos lembrados que os homens rapidamente passaram do espanto para o ódio, e clamaram pedindo a Sua crucificação.

O quarto título, porém, nos lembra que aquele que os homens odiaram e crucificaram produziu muito fruto para Deus pela Sua ressurreição. Quando Deus chama o maná de “trigo dos Céus”, a substituição da palavra “pão” pela palavra “trigo” muda a ênfase do alimento, não mais enfatizando o sustento que ele traz, mas sim o fruto que ele produz (o trigo é muitas vezes usado nas Escrituras como símbolo de fruto; veja Jo 12:24).

O quinto título (“pão dos anjos”) nos lembra que hoje Ele está rodeado dos anjos, sendo adorado na glória celeste, enquanto que o sexto (“alimento espiritual”) lembra-nos da nossa necessidade de alimentar-nos dEle enquanto atravessamos o deserto em que estamos hoje.

E, por fim, o próprio Senhor fala do “maná escondido”. Em Êx 16:32-34 encontramos a ordem do Senhor para guardar um ômer de maná perante o Senhor, e este ômer de maná foi escondido dentro da arca da aliança (Hb 9) no Santo dos Santos. Tudo no Tabernáculo fala de Cristo; as coisas “escondidas”, porém, aquelas que ficam além do véu, sem dúvida falam daquilo que Cristo representa para o Pai, das belezas e glórias dEle que estão ocultas ao olho humano. Creio que o Senhor está dizendo que o vencedor poderá apreciar belezas da glória de Cristo que apenas o Pai conhece. Quão grande seria este privilégio! Não apenas conhecê-lO como Seus santos O conhecem, mas conhecê-lO como o Pai O conhece! Lembrando que I Co 2:9-10 nos fala de coisas inescrutáveis para o homem natural, mas que são reveladas hoje aos que O amam, podemos crer que este privilégio pode ser nosso hoje!

Assim, os sete títulos falam de como Cristo encarnou-Se (“pão dos Céus”), foi recebido com espanto (“maná — que é isto?”) e ódio (“pão vil”), mas pela Sua morte e ressurreição produziu muito fruto para Deus (“trigo do Céu”). Elevado à glória celeste, Ele hoje é o “pão dos anjos” quanto ao Céu, e o “alimento espiritual” para Seu povo aqui na Terra. Como seria bom se também estivéssemos nos alimentando do maná escondido, que tanto agrada ao coração do Pai!

Levantemos cedo de nossas camas, então, ansiosos por colher o Maná diário do qual tanto precisamos!

© W. J. Watterson

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Os sete candeeiros de ouro

Autor desconhecido (favor informar se souber)
Na visão maravilhosa que João teve do Senhor Jesus na ilha de Patmos (Apocalipse cap. 1), a primeira coisa que ele descreve são os sete candeeiros. Não que eles fossem aquilo que mais se destacava na visão — pelo relato de João, fica claro que o Senhor, em toda a Sua glória, foi quem prendeu a atenção do apóstolo. Mas quando João vira, ele vê primeiro “sete castiçais de ouro”.

Por quê? Se lembramos que os candeeiros são figuras das sete igrejas (que, por sua vez, são representativas de todas as igrejas locais desta dispensação), então percebemos como é destacada a importância do testemunho de uma igreja local. Os candeeiros só estavam ali porque o Senhor estava ali, e só chamaram a atenção de João momentaneamente; mas foram mencionados primeiro. Não era possível olhar para os candeeiros e não ver o Senhor, e não era possível olhar para o Senhor sem que seu olhar passasse pelos candeeiros. Da mesma forma, sabemos que uma igreja local só existe enquanto o Senhor está ali, e toda a importância e glória da igreja está nEle; mas a igreja tem uma importância enorme, pois ela é um dos meios pelos quais Cristo pode ser conhecido do pecador hoje em dia; ela é um testemunho dEle.

Repare que eram sete candeeiros, não um candelabro com sete lâmpadas como no Tabernáculo. O candelabro destacava a união do povo de Israel, mas estas sete peças individuais, separadas, destacam a autonomia de cada igreja local. Não estão ligadas uma à outra; o único elo que unia estes candeeiros era o Senhor no meio.

Eram sete candeeiros (a melhor tradução da palavra grega luchnia), isto é, um suporte para lâmpadas que consomem óleo, e não velas. A figura é importante. As igrejas não são apresentadas sob a figura de velas (isto é, algo que produz luz enquanto consome-se a si mesmo), mas sim como lâmpadas ou lamparinas (isto é, algo que produz luz ao queimar óleo). Assim é destacada a importância do óleo, que nas Escrituras é uma figura do Espírito Santo. As igrejas só podem iluminar através da operação do Espírito Santo.

Eram sete candeeiros de ouro! O ouro fala-nos de algo precioso e puro, assim como uma igreja local é preciosa aos olhos de Deus. Pode ser (e muitas vezes é) desprezada pelo mundo, e até por muitos cristãos, mas é preciosa ao Senhor. No passado Deus podia dizer de Israel: “Aquele que tocar em vós toca na menina do Seu olho” (Zc 2:8). Hoje, o mesmo Deus afirma, falando duma igreja local: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (I Co 3:17).

Esta visão dos sete candeeiros de ouro, portanto, nos fala sobre:

  • O alvo das igrejas — direcionar as atenções para Cristo;
  • A autonomia das igrejas — decorrente da autoridade de Cristo;
  • A atuação das igrejas — depende da ação do Espírito Santo;
  • A avaliação das igrejas — destacando a apreciação de Deus.

Que privilégio fazer parte de uma igreja local, separada dos sistemas e organizações do Cristianismo professo.

© W. J. Watterson

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A grande comissão

Uma breve consideração sobre a comissão do Senhor Jesus Cristo, registrada em dois dos Evangelhos. Baseada em uma pregação numa conferência alguns anos atrás.

Leitura: Mateus 28:18-20 e Marcos 16:15-20

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Zeugma

Da série “Figuras de linguagem na Bíblia”. Leia também:



A palavra grega zeugma quer dizer “jugo” (uma peça de madeira que une dois animais para que trabalhem juntos). Quando usada no campo da Retórica, duas definições divergentes são apresentadas:

  • A Wikipédia (em português) define zeugma como “figura de linguagem que consiste na omissão de um ou mais elementos de uma oração, já expressos anteriormente”. Muita ênfase é dada às palavras “já expressos anteriormente” (inclusive, este detalhe torna-se a diferença entre zeugma e elipse, segundo a Wikipédia). De acordo com esta definição, zeugma é simplesmente um tipo especial de elipse. Uma rápida pesquisa online revelará dezenas de sites de “ajuda a estudantes” em português que simplesmente repetem o que está no site da Wikipédia (a maioria, sem ao menos citar a fonte!).
  • Já a Wikipedia (em inglês) começa sua definição explicando que a palavra quer dizer “jugo”, e portanto define a figura como “uma única frase ou palavra unindo diferentes partes de uma frase”. A ênfase nesta definição não está na omissão de um ou mais elementos de uma frase, mas no fato de que, devido a esta omissão, um único elemento (um verbo, por exemplo) é ligado (como que por um jugo) a diferentes partes da frase.

Esta segunda definição é defendida por diversos autores (Bullinger, Harris — professor de inglês na Vanguard University) e dicionários (Oxford). Eles destacam a relação de dependência entre os elementos da frase que é criada pelo uso desta figura de linguagem, que combina com o significado original da palavra. É esta definição que apresento neste pequeno estudo.

Podemos distinguir pelo menos quatro tipos de zeugma usados na Bíblia. Veja abaixo uma definição resumida de cada um destes quatro tipos, com alguns exemplos.

Prozeugma (ou protozeugma)

Quando o elemento que serve de jugo se encontra no início da frase. Exemplo:

  • Lc 24:27 — “E começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dEle se achava em todas as Escrituras”. Gramaticalmente, “começando” só pode se aplicar a “Moisés”, que está no começo do Velho Testamento. O sentido implícito na frase é que Ele começou por Moisés, e depois continuou através dos profetas (a versão Atualizada acrescenta o verbo “discorrendo” em relação aos profetas). Realmente, porém, não há erro, e não é necessário acrescentar outro verbo. O sentido do que Lucas escreveu, inspirado pelo Espírito Santo, é claramente entendido, e a figura de linguagem chama a nossa atenção não para os verbos (“começando”, “discorrendo”), mas para os livros da Bíblia. A mensagem transmitida é que o Senhor poderia ter começado por qualquer livro do Velho Testamento, pois todos eles igualmente falam dEle. Em todos os profetas e em todas as Escrituras, o tema central sempre será o nosso amado Senhor Jesus Cristo.

Mesozeugma

Quando o elemento que serve de jugo se encontra no meio da frase. Exemplos:

  • Dt 4:12 — “… porém, além da voz, não vistes figura alguma”. A ordem das palavras no hebraico é: “figura nenhuma vistes a não ser a voz”. Parece errado, pois uma voz não se vê — se ouve! Parece que seria necessário acrescentar o verbo “ouvistes” — “figura nenhuma vistes, somente ouvistes a voz”. Na realidade, porém, temos aqui mais um exemplo da perfeição das Escrituras. Através da omissão do segundo verbo (“ouvir”), um único verbo (“ver”) governa a frase toda. Assim o fato de que nada foi visto é enfatizado, e o erro da idolatria (que está ligada com “imagens”, com aquilo que se vê) é claramente condenado.
  • Mc 13:26 — “Então verão vir o Filho do Homem nas nuvens, com grande poder e glória”. No grego, a ordem das palavras é: “… com poder grande e glória”, uma construção gramatical que, de acordo com Bullinger, é “peculiar”, fora do normal. Assim um único adjetivo (“grande”) é aplicado a dois substantivos (“poder” e “glória”) numa forma não-convencional, chamando nossa atenção para a grandeza do poder e a grandeza da glória da vinda do Senhor. Que dia maravilhoso será aquele!
  • I Co 3:2 — “Com leite vos criei, e não com carne”. O único verbo que rege os dois substantivos (“leite” e “carne”) quer dizer, literalmente, “dar de beber” (é traduzido “regar” nos vs. 6 e 7 deste mesmo capítulo), e aplica-se sempre a líquidos, não a sólidos. A tradução literal é: “Leite vos dei a beber, não carne”. A versão Trinitariana e a versão Corrigida tentam solucionar o aparente problema traduzindo “vos criei”, enquanto que a Atualizada acrescenta “vos dei” antes de “alimento sólido”. Mas não há erro — há, sim, uma figura de linguagem que confere beleza poética à frase, ao mesmo tempo em que destaca a diferença entre “leite” e “carne”. “Leite vos dei a beber, não carne” é muito mais belo, expressivo e enfático do que a forma rígida: “Leite vos dei a beber, não vos dei carne a comer”.

Hipozeugma

Quando o elemento que serve de jugo se encontra no final da frase. Exemplo:

  • At 4:28 — “… fazerem tudo o que a Tua mão e o Teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer”. O verbo “determinar”, no final da frase, só se aplica ao conselho de Deus — o Seu conselho determinou, mas a Sua mão fez. A omissão do verbo “fazer” (ou “executar”) não é um erro — é uma figura de linguagem que destaca a harmonia tão perfeita que existe entre tudo que Deus planeja e tudo que Deus executa. Os homens podem planejar uma coisa, e depois executar outra (por falta de vontade de cumprir o plano original, ou por falta de capacidade); mas tudo aquilo que Deus determina, Ele cumpre. Em outras palavras: a mão e o conselho de Deus determinaram tudo, e a mão e o conselho de Deus fizeram tudo. Os dois (os planos e a execução destes planos) são inseparáveis.

Sinezeugma

Quando o elemento que serve de jugo se liga a mais de dois elementos. Exemplo:

  • Êx 20:18 — “E todo o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e o monte fumegando; e o povo, vendo isso …”. O único verbo usado (“ver”, no início e no final da frase) só poderia ser usado dos relâmpagos e do monte fumegando; os trovões e o sonido deveriam ser regidos pelo verbo “ouvir”. Porém se todos os verbos tivessem sido usados, a leitura seria muito menos expressiva. Da forma como está, temos um quadro impressionante com som (trovões e sonido de trombetas) e imagem (relâmpagos e monte fumegando) que impressionou o povo, e deveria nos impressionar até hoje, servindo a Deus “com reverência e piedade, porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb 12:28-29).

Conclusão

Que estes poucos exemplos extraídos da obra de Bullinger nos incentivem a pesquisar as Escrituras com mais cuidado e paciência, aproximando-nos da Bíblia com a convicção de que ela é perfeita em todos os seus detalhes. Quando encontramos algo que parece indicar uma relação desequilibrada entre os termos de uma frase, é bem provável que estamos diante de algum tipo de zeugma, e que há algum detalhe ali que o Espírito Santo quis enfatizar quando usou esta figura de linguagem.

Como pode um coração inteiro numa lágrima se expressar?
Por que uma pérola se esconde tão fundo no mar?
Senhor, ajude-me também Teu livro perscrutar!


© W. J. Watterson

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Assíndeto e Polissíndeto

Da série “Figuras de linguagem na Bíblia”. Se desejar, leia primeiro a Introdução a esta série de artigos.

Introdução

As duas figuras que servem de título para este artigo merecem ser consideradas juntas, pois uma complementa a outra. A primeira (assíndeto) pertence ao grupo de figuras elípticas (caracterizadas por omissão), e a segunda (polissíndeto) ao grupo das figuras pleonásticas (caracterizadas por acréscimo).

Entre as muitas ocorrências destas figuras na Bíblia, uma se destaca: nosso Senhor usou ambas numa mesma ocasião, poucos minutos uma da outra, e relacionadas ao mesmo grupo de quatro palavras, na mesma ordem.

Comecemos, porém, definindo as figuras e tentando entender seu significado (isto é, por que são usadas).

Definindo as figuras

O dicionário Priberam dá as seguintes definições:

  • Assíndeto: “Supressão das conjunções coordenativas entre frases ou entre partes da oração e da frase”;
  • Polissíndeto: “Repetição da mesma conjunção em frases ou constituintes seguidos”.

“Assíndeto” quer dizer, basicamente, “nenhuma conjunção” (“a” + “síndeto”), e “polissíndeto”, “muitas conjunções” (“poli” + “síndeto”).

Gramaticalmente, a forma normal de se apresentar uma lista de palavras é separá-las com vírgulas, usando a conjunção “e” somente antes da última palavra na lista. Por exemplo, na frase: “Três palavras que descrevem os tipos de figuras de linguagem são: omissão, acréscimo e alteração”, temos a forma normal de se escrever. Se usássemos a figura assíndeto, escreveríamos: “Três palavras que descrevem os tipos de figuras de linguagem são: omissão, acréscimo, alteração”, e com polissíndeto teríamos: “Três palavras que descrevem os tipos de figuras de linguagem são: omissão e acréscimo e alteração”.

Descrevendo suas finalidades

Não é difícil entender a diferença entre assíndeto e polissíndeto — mas qual a finalidade destas duas figuras de linguagem? Se pretendo desviar da norma padrão e usar um assíndeto ou polissíndeto, o que ganharei com isso?

Podemos resumir as três formas de se apresentar uma lista de palavras da seguinte forma:

  • A forma comum — Se queremos simplesmente apresentar os elementos que compõe uma lista, sem nenhum destaque ou ênfase especial, escrevemos como no primeiro exemplo dado na seção anterior (separando os elementos por vírgulas, e acrescentando a conjunção “e” antes do último elemento).
  • Assíndeto — Se queremos dar destaque ao quadro geral apresentado pela lista, mais do que aos elementos individuais que compõe a lista, omitimos as conjunções. Assim o leitor não tem sua atenção distraída pelas muitas conjunções, e caminha mais apressadamente para o final da lista, onde poderá haver uma conclusão que o autor deseja destacar mais do que os elementos individuais da lista.
  • Polissíndeto — Por outro lado, talvez o autor deseja destacar os elementos individuais que compõe a lista, mais do que o quadro geral. Neste caso, ele recorre ao polissíndeto. Ao encontrar a conjunção “e” repetida para cada palavra da lista, o leitor lê mais pausadamente, e dá mais atenção a cada uma das palavras individuais.

Resumindo: o assíndeto destaca a lista (o quadro geral), o polissíndeto destaca os elementos que compõe a lista.

É isto que dizem os gramáticos. Devo confessar que no meu dia-a-dia tal distinção é insignificante, e muitos que leem este pequeno artigo provavelmente estão na mesma situação que eu: falamos e escrevemos sem nos preocuparmos com estes pequenos detalhes. Mas os que entendem de gramática reconhecem a validade das figuras, e creio que o Espírito Santo, na perfeição da Sua sabedoria divina, teria também prestado atenção a este detalhe ao escrever a Bíblia. Se você encontrar um assíndeto ou polissíndeto neste blog, pode ser mera coincidência, ou pode ser que usei a figura num lugar inapropriado; mas encontrando uma destas figuras na Bíblia, você pode ter certeza de que ela está lá com um propósito específico, e que devemos prestar atenção à figura.

Destacando as figuras

Como mencionei acima, a Bíblia contém um exemplo impressionante de nosso Senhor usando estas duas figuras numa mesma ocasião. Em Lucas 14:1-24 o Senhor está na casa de um dos principais dos fariseus, e diz: “Chama os pobres, aleijados, mancos, cegos” (v. 13). Poucos versículos adiante, Ele diz: “Traze aqui os pobres e aleijados e mancos e cegos” (v. 21).

O parágrafo acima contém a tradução literal dos dois versículos — as versões em português, infelizmente, não preservam as figuras usadas no grego nestes versículos. No original, a lista do v. 13 não contém nenhuma conjunção, enquanto que a lista do v. 21 usa a conjunção entre todas as palavras da lista.

Repare bem esta diferença. Na mesma ocasião (na casa de um dos principais dos fariseus) o Senhor Jesus apresenta, duas vezes, uma lista contendo exatamente os mesmos quatro adjetivos (“pobres, aleijados, mancos, cegos”), e na mesma ordem. Na primeira vez, porém, Ele não usa nenhuma vez a conjunção “e” (assíndeto), enquanto que na segunda vez, Ele usa a conjunção entre todas as palavras (polissíndeto).

A mesma lista, no mesmo lugar, para as mesmas pessoas, poucos minutos uma após a outra — mas apresentadas de forma diferente! A única coisa que mudou entre o v. 13 e o v. 21 é o contexto, por isso a importância de percebermos a figura de linguagem usada.

Na primeira vez que apresenta a lista, sem conjunções, o Senhor está apresentando um princípio para o nosso serviço; na segunda vez, apresentando a mesma lista, porém com todas as conjunções, o Senhor apresenta uma parábola sobre a nossa salvação.

Um princípio para o serviço

Nos vs. 7-14, a ênfase do Senhor Jesus é num princípio que deve governar a nossa vida e o nosso serviço para Ele. Este princípio é resumido no v. 11: “Qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado”. Este princípio geral é aplicado a duas situações diferentes: a alguém que é convidado, e a alguém que convida. O trecho apresenta um quiasma (outra figura de linguagem muito usada na Bíblia):
  • O princípio aplicado a quem é convidado (vs. 7-10)
    • O princípio apresentado (v. 11)
  • O princípio aplicado a quem convida (vs. 12-14)
Qualquer que seja a nossa situação, o princípio que deve nos guiar é o mesmo: não procurarmos recompensa, nem riquezas, nem glória aqui na Terra, mas ocuparmos o último lugar, esperando que Deus, na glória futura, nos recompensará.

Assim, na lista apresentada no v. 13, o Senhor não quer dar destaque a cada um dos quatro tipos de pessoas necessitadas que Ele menciona. A lição principal não é que, ao dar uma festa, preciso convidar uma pessoa pobre, outra aleijada, outra manca, e outra cega. O Senhor não usa as conjunções, de sorte que passamos rapidamente pela lista, e chegamos logo à conclusão: “Quando fizeres convite, chamas os pobres, aleijados, mancos, cegos, e serás bem-aventurado”. O Senhor está nos mostrando que devemos convidar pessoas que não podem nos recompensar (das quais os quatro tipos da lista são apenas um exemplo), sabendo que “na ressurreição dos justos” seremos recompensados. Não são apenas os pobres, aleijados, mancos, cegos que devemos convidar, mas qualquer um que não tenha condições de nos recompensar. É claro que podemos convidar outros também, mas o verdadeiro cristão terá prazer em ajudar aqueles que não podem retribuir o favor, e não simplesmente ajudar querendo alguma coisa em troca.

É assim que agimos?

Uma parábola sobre a salvação

Na parábola apresentada nos v. 15-24, temos uma figura da salvação, num contexto dispensacional. A parábola fala de dois convites bem distintos, e entre estes dois convites há quatro diferenças importantes:

  • O tempo dos convites: o segundo foi feito somente depois que o primeiro foi recusado;
  • O tipo de convidado: primeiro foram pessoas nobres, depois os pobres, e aleijados, e mancos, e cegos;
  • Os termos do convite: o primeiro convite dizia: “Vinde”, mas na segunda vez o servo foi ordenado a trazer alguns;
  • O tratamento do convite: os primeiros recusaram, os segundos aceitaram.

É proveitoso contrastar esta parábola com a parábola semelhante registrada em Mt 22. Tanto lá quanto aqui encontramos a terceira de três parábolas contadas depois que os fariseus ficaram sem palavras. Compare a sequência dos acontecimentos:


Nas parábolas em si, há diversas diferenças importantes:


Parece que, em Mateus, a ênfase está naqueles que rejeitaram o convite e como o Senhor os trata (lemos dos homicidas sendo destruídos e das suas cidades sendo queimadas, e do homem sem veste nupcial sendo jogado fora), enquanto que aqui, a ênfase parece recair sobre aqueles que tomaram o lugar dos que rejeitaram (temos a descrição detalhada dos quatro tipos de pessoas convidadas na “segunda chamada”, e nenhuma menção da destruição dos primeiros). Ambas as parábolas falam de como Israel rejeitou o convite, e por isso os Gentios, indignos, foram convidados. Mateus destaca mais a rejeição de Israel, Lucas enfatiza o caráter indigno dos Gentios.

Comparando o ensino desta parábola com o que vimos na parte anterior, sobre o princípio que deve nos guiar em relação a convites, vemos como o Senhor também convida para a Sua ceia aqueles que não tem com que O recompensar.

Agora, repare como o polissíndeto usado pelo Senhor se encaixa perfeitamente neste contexto. O primeiro grupo de convidados, que representa Israel, é chamado somente de “convidados”. O segundo grupo, que representa os salvos desta dispensação, a Igreja, é descrito de quatro formas diferentes. Mas aqui o Senhor não omite as conjunções para nos ajudar a passar rapidamente por cima da lista; pelo contrário, Ele usa todas as conjunções possíveis, para nos forçar a caminhar lentamente por esta descrição triste, porém muito real, da nossa condição. Todos nós éramos, espiritualmente, pobres, e também aleijados (“mutilados”), e também mancos, e também cegos! Não são palavras genéricas que descrevem alguns de nós; todas elas se aplicam a todos nós antes da nossa conversão!

Meditando assim nos detalhes desta descrição, percebemos quanto ela combina com a realidade, e também quanto ela exalta o amor de Deus, que convidou para a Sua ceia pessoas pobres, e aleijadas, e mancas, e cegas! “Já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós Se fez pobre; para que pela Sua pobreza enriquecêsseis” (II Co 8:9)

Descobrindo mais figuras

É impressionante ver como o Senhor mudou a forma de apresentar estas quatro classes de pessoas desprezadas, usando um polissíndeto poucos minutos depois de ter usado um assíndeto. As palavras não mudaram; os ouvintes eram os mesmos; a única coisa que mudou era o contexto. Na primeira ocasião o Senhor destaca as bênçãos daqueles que convidam os desprezados (não importa, realmente, que tipo de desprezado seja convidado), mas na segunda ocasião Ele enfatiza as características daqueles que Ele mesmo convidou. Na primeira lista não era necessário meditar nas qualidades específicas das pessoas (eram apenas alguns exemplos), por isso as conjunções são omitidas (assíndeto). Já na segunda lista, as qualidades específicas apresentadas são a razão principal da lista, por isso são usadas todas as conjunções possíveis. A sabedoria do Senhor ao falar, e a perfeição da inspiração do Espírito quando Lucas escreveu, nos impressionam.

Em terminar este pequeno artigo, gostaria de fazer um alerta para aqueles que desejam descobrir mais exemplos de assíndetos e polissíndetos no NT: é necessário verificar suas conclusões pelo texto grego do NT, pois as versões em português muitas vezes escondem estas figuras de linguagem (como foi destacado no caso de Lucas cap. 14).

Se você não sabe ler grego, não se desespere. Eu também não sei, mas há muitos recursos disponíveis hoje em dia para ajudar-nos. Um exemplo é o site Gospel Prime que apresenta o texto grego do NT. Com um pouco de trabalho (e muita cautela para não chegar a conclusões precipitadas!) é possível procurar pela conjunção kai (“e” em português) e ver se ela está presente ou não no texto que você estiver estudando.

Se algum leitor precisar de alguma outra informação, pode entrar em contato comigo nos comentários abaixo.


Leia o próximo artigo nesta série: Zeugma.


© W. J. Watterson

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Pregações de R. E. Watterson

Na conferência em Pirassununga, 15/11/2007
Seguem abaixo links para algumas gravações de pregações feitas pelo meu pai, Ronald E. Watterson. Em Agosto de 1997, depois de muito tempo buscando um diagnóstico para os problemas que o incomodavam, foi confirmado que meu pai sofria do Mal de Parkinson. Ele ainda continuou pregando por mais de uma década depois deste diagnóstico, lutando contra o avanço desta doença cruel.

Meu pai faleceu em 30 de Maio de 2016, com 80 anos de idade. Desde que publiquei os links abaixo, tive acesso a outras mensagens dele — hoje, esta página contém links para 101 pregações. Agradeço aos irmãos José Carrasco e Ubiratã Torres, que forneceram diversas destas mensagens.

Que Deus seja glorificado, e Seu povo edificado, através destas pregações.

Atualização em 19/08/2019 — Devido a configurações de privacidade da Microsoft, os links abaixo estão com problema. Temporariamente, acesse a pasta com todas as pregações neste link.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Nove figuras das igrejas locais

O Novo Testamento usa diversas figuras diferentes para ilustrar o que é, e como deve funcionar, uma igreja local. Uma forma de organizar estas figuras, facilitando a compreensão das diferenças entre elas, é lembrar de como o VT enfatizou a ideia de Deus habitando com o Seu povo no Tabernáculo e no Templo, e pensar na igreja local principalmente em termos de uma habitação divina hoje.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Homem de guerra e homem de repouso

Davi e seu filho Salomão são descritos na Palavra de Deus de duas formas bem diferentes: alguém disse de Davi que ele era “valente e vigoroso, e homem de guerra” (I Sm 16:18), enquanto que o próprio Senhor disse a Davi, acerca de Salomão: “Eis que o filho que te nascer será homem de repouso; porque repouso lhe hei de dar de todos os seus inimigos ao redor” (I Cr 22:9). Nestes dois temos um retrato do nosso Senhor Jesus Cristo em duas épocas: no final da Tribulação (Davi) e no Milênio (Salomão).

Davi, o homem de guerra que livrou Israel de todos os seus inimigos, nos lembra do Senhor Jesus como aquele que, “na cruz … despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em Si mesmo” (Cl 2:14-15). No final da Tribulação, lemos dEle: “… julga e peleja com justiça … E da Sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações” (Ap 19:11-16).

Salomão, o sucessor de Davi, homem de repouso, ao qual Deus deu um reino que não foi atacado, mas onde a paz e a justiça prosperaram, nos lembra do Senhor Jesus e o reino de paz e descanso que Ele trará à Terra durante o milênio, quando “o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança, para sempre. E o Meu povo habitará em morada de paz, e em moradas bem seguras, e em lugares quietos de descanso” (Is 32:17-18).

Tendo sido libertados dos nossos inimigos pelo maior Homem de guerra, esperamos um reino de paz e repouso sob o governo do maior Homem de repouso. A Ele seja toda a glória!

© W. J. Watterson

sábado, 5 de outubro de 2013

A Divindade do Filho

O texto abaixo é o segundo capítulo do livro gratuito “A Glória do Filho”, publicado pela Editora Sã Doutrina.

Cap 2 — A deidade da Sua Pessoa

Por John M. Riddle, Inglaterra


O que pensais vós de Cristo é a prova
Que testa vosso estado e intenção;
Em tudo o mais não tereis razão
Tendo dEle equivocada compreensão.
(John Newton) 

Introdução
“E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; para que todos honrem o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que O enviou” (Jo 5:22-23).

Em resposta à Sua pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” os discípulos responderam: “Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros Jeremias, ou algum dos profetas”. Em resposta à Sua próxima pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Simão Pedro replicou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16:13-16). Mas isso não é tudo. Um pouco mais tarde, tendo ouvido o que os homens tinham a dizer sobre Ele, e tendo ouvido o que Pedro tinha a dizer sobre Ele, Deus mesmo declara: “Este é o Meu amado Filho em quem Me comprazo” (Mt 17:5).

Mas havia incredulidade naquele tempo, como agora; a incredulidade moderna não é nova. Ele não foi reconhecido por muitos e teve que dizer para a mulher samaritana: “Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz, Dá-me de beber, tu Lhe pedirias, e Ele te daria água viva” (Jo 4:10). Seus próprios conterrâneos disseram: “De onde veio a Este a sabedoria e estas maravilhas? Não é Este o filho do carpinteiro? E não se chama Sua mãe Maria, e Seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as Suas irmãs? De onde Lhe veio, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nEle” (Mt 13:54-57). Até mesmo da Sua família foi dito: “nem mesmo seus irmãos criam nEle” (Jo 7:5) As autoridades religiosas foram além: “Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este não sabemos de onde é” (Jo 9:29). O seu sarcasmo é sutilmente velado. João resume tudo em duas frases: “Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O conheceu. Veio para o que era Seu e os seus não O receberam” (Jo 1:10-11).

Foi por causa desta incredulidade e falsa doutrina que dois livros do Novo Testamento foram escritos: o Evangelho de João e a I Epístola de João. O apóstolo afirma isto categoricamente perto do final do seu Evangelho: “Jesus, pois, operou também em presença de Seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (Jo 20:30-31). Devemos notar que a segurança eterna do cristão se baseia na Divindade de Cristo. Alguém disse que “um Salvador que não é absolutamente Deus é como uma ponte quebrada bem no final”! Uma afirmação semelhante ocorre na primeira Epístola de João: “Estas coisas vos escrevi a vós, os que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna” (5:13). A Epístola conclui com outra afirmação categórica: “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus [Ele é o verdadeiro Deus, JND] e a vida eterna” (5:20).

O Evangelho de João foi escrito para dar o conhecimento da salvação: “para que creiais … e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome”. A primeira epístola de João foi escrita para dar a segurança da salvação: “para que saibais que tendes a vida eterna, vós os que credes”. Tanto o conhecimento da salvação quanto a segurança da salvação são garantidas porque o Salvador é o Filho de Deus.

O ensino do Velho Testamento

A deidade de Cristo é ensinada consistentemente através das Escrituras, tanto no Velho como no Novo Testamento. No que diz respeito ao Velho Testamento, destacamos o seguinte:

Salmo 45:6-7

Falando do Rei, está escrito:

“O Teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do Teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o Teu Deus Te ungiu com óleo de alegria mais do que a Teus companheiros.”

Esta é uma afirmação muito importante em relação à Sua deidade. Trata-se de uma Pessoa Divina dirigindo-Se à outra: “O Teu trono, ó Deus” — aquele a quem as palavras são dirigidas é Deus. Veja o v. 7: “por isso Deus, o Teu Deus, Te ungiu” — aquele que fala é Deus. Isto é confirmado no Novo Testamento: “Mas do Filho diz: Ó Deus, o Teu trono subsiste pelos séculos dos séculos …” (Hb 1:8-9).

Salmo 110:1

“Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-Te à Minha mão direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés”.

O Hebraico, traduzido literalmente, diz: “O oráculo de Jeová ao meu Senhor.” Isto faz das próximas palavras uma mensagem direta de Deus para o Seu Rei. É um oráculo de Jeová — o Deus fiel do concerto, o Deus imutável. Aqui, o Senhor Jesus é chamado de Adonai, que significa “Soberano Senhor, Mestre, Possuidor, Proprietário” (Newberry). Também devemos notar Mateus 22:45: “Se Davi, pois, Lhe chama Senhor, como é Seu Filho?”

O Salmo registra a acolhida Divina gozada pelo Senhor Jesus na Sua ascensão: “Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio diz: Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-Te à minha direita, até que ponha os Teus inimigos por escabelo de Teus pés. Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2:34-36). O escritor aos Hebreus pergunta: “E a qual dos anjos disse jamais, Assenta-Te à minha destra, até que ponha a Teus inimigos por escabelo de Teus pés?” (Hb 1:13).

Isaías 7:13-14

“Ouvi agora, ó casa de Davi … Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um Filho, e chamará o Seu nome Emanuel”.

O Novo Testamento estabelece com absoluta clareza o significado desta profecia: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um Filho, e chamá-Lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é: Deus conosco” (Mt 1:22-23). Esta é uma afirmação categórica: “para que se cumprisse”. Não, como em outros casos: “e outra vez diz a Escritura” (Jo 19:37), que indica a aplicação de uma passagem do Velho Testamento, em vez da sua interpretação e cumprimento. As palavras “chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel” explicam a razão da maneira da Sua concepção. E. J. Young, no seu livro The Book of Isaiah (O Livro de Isaías) cita João Calvino: “Calvino acertadamente sustenta que o nome não pode ser aplicado a alguém que não é Deus. Nenhum outro no Velho Testamento leva este nome. Por estas razões, a profecia precisa ser interpretada somente em relação àquele a quem estas condições se aplicam, isto é, Jesus Cristo, o Filho da Virgem e o Deus Forte”. “Emanuel”, que transmite a Sua divindade absoluta, junto com o da Sua humanidade perfeita, é uma descrição da Sua identidade, mais do que um nome pelo qual Ele foi conhecido na Terra.

Isaías 9:6

“Porque um menino nos nasceu, um Filho Se nos deu, e o principado está sobre os Seus ombros, e se chamará o Seu nome: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.”

O título “Deus Forte” enfatiza Sua deidade e, portanto, Seu poder. O trono de Davi parecia especialmente vulnerável quando Acaz reinava sobre Judá, e depois desapareceu totalmente. O último Reivindicador foi coroado com espinhos! Mas este trono será ocupado no final pelo “Deus Forte”! Davi era um rei poderoso, e o Senhor lhe deu “descanso de todos os seus inimigos em redor” (II Sm 7:1). Mas quem pode se comparar com o Rei final, de quem é dito: “Eis que reinará um rei com justiça” (Is 32:1)? “Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés” (I Co 15:25).

Isaías 40:3, 9

“Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai no ermo a vereda a nosso Deus … Tu ó Sião, que anuncias boas novas, sobe a um monte alto. Tu, ó Jerusalém, que anuncias boas novas, levanta a tua voz fortemente; levanta-a, não temas, e dize às cidades de Judá: Eis aqui está o vosso Deus”. 

Isto se refere, inicialmente, à pregação de João Batista: “Este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai as Suas veredas” (Mt 3:3).

Quando Isaías declara: “Aqui está o vosso Deus”, ele usa a palavra Elohim para Deus. Isto deve ser comparado com: “Preparai o caminho do Senhor [Jeová], endireitai no ermo uma vereda a nosso Deus [Elohim]”, e “naquele dia se dirá: Eis que este é o nosso Deus [Elohim] a quem aguardávamos, e Ele nos salvará; este é o Senhor [Jeová], a quem aguardávamos; na Sua salvação gozaremos e nos alegraremos” (Is 25:9). Estas passagens enfatizam a deidade do Senhor Jesus, de quem João Batista disse: “Eu na verdade batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas” (Lc 3:16). 

Zacarias 13:7

“Ó espada, desperta-te contra o Meu Pastor, e contra o homem que é o Meu companheiro, diz o Senhor dos exércitos. Fere ao Pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas”.

Isto enfatiza a Sua deidade: “O homem que é o Meu companheiro”. A palavra “homem” aqui significa “um homem forte”. A palavra “companheiro” tem diversas traduções: “o homem da Minha união”; “um homem coigual Comigo”; “o homem Meu igual”. É preciso dizer mais? Ele é o Divino Pastor. Ele é igual a Deus. Ele mesmo disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30).

Malaquias 3:1

“Eis que Eu envio o Meu mensageiro, que preparará o caminho diante de Mim, e de repente virá ao Seu templo o Senhor [Adonai], a quem vós buscais …”.

Este versículo enfatiza claramente a deidade do Senhor Jesus. Ele é o “Deus do juízo”, que diz: “Eis que Eu envio o Meu mensageiro, que preparará o caminho diante de Mim”. João Batista, “Meu mensageiro”, preparou o caminho para o Senhor Jesus que é, portanto, ninguém menos que o Próprio Deus. Isto é confirmado pela segunda afirmação: “… virá ao Seu templo o Senhor [Adonai], a quem vós buscais”. Este versículo notável enfatiza, portanto, tanto a deidade do Senhor Jesus, como a Sua identidade distinta.

O ensino do Novo Testamento

Estas belas passagens do Velho Testamento são plenamente corroboradas no Novo Testamento, onde o assunto da deidade do nosso Senhor é constantemente e consistentemente destacado. Ele é descrito como “a imagem do Deus invisível” (Cl 1:15), “a expressa imagem da Sua [de Deus] Pessoa” (Hb 1:3). No Novo Testamento, o Espírito Santo usa duas palavras gregas quando descreve o Senhor Jesus como a “imagem de Deus”.

Eikon

Esta palavra é usada em Colossenses 1:15, como vimos acima, e em II Coríntios 4:4: “para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus”. Como a “imagem de Deus”, Cristo é “essencialmente e absolutamente a expressão perfeita e a representação de Deus. Como a ‘imagem do Deus invisível’, Cristo é a representação visível e a manifestação de Deus aos seres criados” (W. E. Vine). Compare Hebreus 10:1: “Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas”.

A mesma palavra eikon ocorre em Mateus 22:20: “de quem é esta efígie [imagem] e esta inscrição?”; I Coríntios 11:7: “O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e a glória de Deus”; Apocalipse 13:15: “E foi-lhe concedido que desse espírito à imagem da besta”. Em cada caso, “imagem” não é a realidade; ela representa e manifesta a realidade. No caso de uma moeda, a imagem irá mudar no prosseguir do reino; mas Cristo não. Ele não envelhece nem degenera! O Senhor Jesus, porém, não simplesmente representa a realidade, Ele é Deus absoluta e essencialmente. Ele não é a semelhança do Deus invisível, mas a “imagem do Deus invisível”. Somente Ele manifestou a Deus. Veja João 1:18: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, esse O revelou”; João 14:9: “Quem Me vê a Mim vê o Pai”. NEle estão manifestos a própria natureza e atributos de Deus pelo Seu poder, onisciência, santidade e amor. Neste aspecto temos que distinguir entre Adão e Cristo. Adão foi feito à “imagem de Deus” (Gn 1:26-27), e os homens são “feitos à semelhança de Deus” (Tg 3:9). Em contraste, o Senhor Jesus não foi feito à “imagem de Deus” — Ele é Deus.

Charakter

Esta palavra é usada em Hebreus 1:3: “o qual sendo o resplendor da Sua glória, e a expressa imagem da Sua [de Deus] Pessoa”. Charakter, que vem de um verbo que significa “estampar”, ou “gravar”, originalmente significava o instrumento usado para estampar, que nós chamamos de “carimbo”, ou “molde”, mas veio a significar também a marca feita pelo instrumento. Assim como todas as características da impressão correspondem exatamente ao instrumento que os faz, também Cristo possui a exata impressão da natureza e caráter divinos (M. R. Vincent/ W. E. Vine). As palavras “expressa imagem da Sua Pessoa”, ou “expressão da Sua substância” (JND) enfatizam que todos os atributos de Deus pertencem a Ele; nada está faltando. Veja Colossenses 2:9: “Porque nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Em relação a isto, temos que notar a ligação com o versículo anterior: “Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo, porque nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Por um lado, temos o vazio da filosofia, e por outro temos a perfeita revelação de Deus em Cristo. No primeiro caso é uma especulação, e no segundo é uma revelação. Em Cristo habita toda a plenitude (inteireza) da Divindade absoluta, essencialmente e perfeitamente: a própria Personalidade de Deus. Como W. Kelly destaca: “a plenitude da Divindade nunca habitou no Pai corporalmente, nem no Espírito Santo, mas somente em Cristo”. Deus é conhecido por causa da encarnação. Assim, “nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Não há nada de incerteza aqui. O Senhor Jesus é “Deus [que] se manifestou em carne” (I Tm 3:16). Ele é Aquele de quem João escreveu: “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da Vida” (I Jo 1:1).

A ênfase de João

Visto que, como notamos, João escreveu “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 20:31), podemos esperar que o apóstolo coloque uma grande ênfase neste fato, e agora destacamos a maneira como ele trata este assunto sobremodo importante. Isto nos levará a considerar outras passagens do Novo Testamento que tratam de diferentes aspectos deste grande tema.

Se o Senhor Jesus é Deus, Ele precisa ser eterno

Deus é eterno: “O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo estão os braços eternos” (Dt 33:27). João se refere à eternidade do Senhor Jesus no começo do Seu Evangelho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1:1). A expressão “o Verbo” equivale de modo abreviado à expressão “Palavra do Senhor” do Velho Testamento. Ela revela o Deus invisível. Temos que notar rapidamente o seguinte:

Sua eternidade

“No princípio era o Verbo”. João não diz “desde o princípio”, mas “no princípio”. Ele estava eternamente presente. A expressão “no princípio” se refere a uma condição, e não a um começo.

Sua igualdade

“E o Verbo estava com Deus”. Estas palavras são explicadas como sendo uma “intercomunhão perpétua”. Ele estava e permanece “face a face com Deus”. Isto é enfatizado em Filipenses 2:6: “Que sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus”, onde a palavra “igual” está, realmente, no plural. O Senhor Jesus estava e está em igualdades com Deus. Em todos os aspectos e em cada detalhe, Ele corresponde à Deidade absoluta.

Sua Deidade

“E o Verbo era Deus.” Olhando novamente para Filipenses 2:6, temos que notar que embora Ele “tomou a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens” (v.7), Ele nunca “tomou sobre Si a forma de Deus” nem “foi feito à semelhança de Deus”. A palavra sendo, na expressão “sendo em forma de Deus”, enfatiza a Sua eterna deidade. W.E. Vine ressalta que o verbo “sendo” (huparcho) “evidencia a existência de uma pessoa anterior ao que é afirmado sobre ela”, e dá uma série de ilustrações, tiradas do Novo Testamento, incluindo Atos 2:30.

A palavra “forma” (morphe) “indica a forma especial ou característica de uma pessoa” (W.E. Vine). Vine cita Gifford (The Incarnation of Christ):

Morphe é propriamente a natureza ou essência … como subsistindo permanentemente no indivíduo, e retida pelo tempo que o indivíduo existe … morphe Theo (a ‘forma de Deus’) é a natureza Divina verdadeiramente e inseparavelmente subsistindo na Pessoa de Cristo”.

A palavra é usada novamente no v.7: “tomou a forma de servo”.

As palavras consideradas acima, “sendo em forma de Deus”, devem ser comparadas com Hebreus 1:3: “O qual sendo o resplendor da Sua glória”. Isto enfatiza Sua natureza essencial, independentemente de tempo. Ele é o esplendor, a excelente resplandecência da glória de Deus. Foi dito que “a glória divina que foi vista na Shekinah, a nuvem que repousava sobre o Tabernáculo, é agora plenamente manifestada em Cristo, a verdadeira Shekinah”. Embora “Deus falou aos pais pelos profetas” (onde havia uma distinção de identidade entre Deus e os Seus servos) Ele, nestes últimos dias, “falou-nos … pelo Filho” (onde não há distinção de natureza entre Deus e Seu Filho). JND diz: “falou-nos na pessoa do Seu Filho” (Hb 1:1-2).

Sua personalidade distinta

“Ele estava no princípio com Deus”. Embora o Senhor Jesus dissesse: “Eu e Meu Pai somos um” (Jo 10:30), Ele também disse: “Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai” (Jo 16:28).

João tem mais a dizer em relação a este aspecto da Deidade do Senhor. Em resposta à pergunta: “Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão?”, o Senhor disse: “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Os judeus entenderam perfeitamente a Sua reivindicação. Ele afirmara a Sua Deidade absoluta. “Então pegaram em pedras para Lhe atirarem” (Jo 8:57-59). Novamente, tendo dito: “Eu e o Pai somos um”, os judeus disseram: “Não te apedrejamos por alguma boa obra, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” (Jo 10:30-33). Num cenário completamente diferente, é João quem registra as palavras do Senhor: “E agora, glorifica-Me Tu, ó Pai, junto de Ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17:5). Ele havia glorificado o Pai na Terra (v. 4), e quem senão o Filho de Deus poderia reivindicar reciprocidade?

Outras passagens que enfatizam Sua eternidade

Há outras Escrituras que enfatizam a eternidade do nosso Senhor. Por exemplo, Miquéias 5:2: “de ti [Belém Efrata] me sairá O que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Isto contrasta maravilhosamente com a expressão: “os dias da Sua carne” (Hb 5:7). Quanto ao futuro Ele é chamado de o “Pai da Eternidade” (Is 9:6), e Hebreus 1:10-12 também indica Sua eternidade com as palavras: “Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra de Tuas mãos. Eles perecerão, mas Tu permanecerás; e todos eles, como roupa, envelhecerão, e como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas Tu és o mesmo, e os Teus anos não acabarão”.

Se o Senhor Jesus é Deus, Ele precisa ser onipotente

João nos diz que “todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3). Isto deve ser comparado com Colossenses 1:16-17, onde a expressão “todas as coisas”, ou “tudo”, ocorre quatro vezes. O relacionamento entre o Senhor Jesus e a Criação, nestes versículos, foi apropriadamente resumida, como segue:

Ele é o Arquiteto da Criação (Cl 1:16a)

“Porque nEle [en] foram criadas todas as coisas, que há nos [en] céus e na [api, que significa ‘sobre’] terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades …” A preposição en pode ser traduzida: “porque em Ele foram criadas todas as coisas”. Ele projetou tudo na Criação! Portanto, Ele está obviamente fora da Criação, Ele é distinto da Criação e Ele é maior do que a Criação. As palavras “tronos … dominações … principados … potestades” evidentemente se referem, não a autoridades humanas, mas a autoridades invisíveis. Isto fica claro pelo fato delas serem mencionadas em relação à Criação. Veja também Efésios 6:12, onde “principados e potestades” certamente se referem ao mundo espiritual.

À Sua voz a Criação surgiu num instante,
Todos os anjos, toda hoste brilhante;
Tronos e domínios, estrelas em seu lugar,
Todas as ordens celestiais, miríades a brilhar!
(Caroline Maria Noel)

Ele é o Agente da Criação (Cl 1:16b)

“Tudo foi criado por Ele”. A preposição agora é dia, que significa “através de”. JND diz: “o poder instrumental”. Ele não apenas projetou o Universo; Ele o construiu. “Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3). “Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, e os céus são obra de Tuas mãos” (Hb 1:10).

Ele é o Alvo da Criação (Cl 1:16c)

“Tudo foi criado por Ele e para Ele”. Compare com Hebreus 2:10: “Aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe”; Apocalipse 4:11: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque Tu criaste todas as coisas, e por Tua vontade [ou, para o Teu prazer] são e foram criadas”. Podemos, portanto, estar absolutamente certos de que toda a Criação que “geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8:22) há de, no final, cumprir o seu propósito, e proporcionar gozo e prazer ao seu Criador.

Ele é anterior à Criação (Cl 1:17a)

“E Ele é antes [pro] de todas as coisas”. Ele precede a Criação. Ele precede a Criação porque, ao contrário dela, não tem origem nem derivação. Ele não tem “princípio de dias nem fim de vida” (Hb 7:3).

Ele é o Administrador da Criação (Cl 1:17b)

“E todas as coisas subsistem por Ele”, ou, “Todas as coisas subsistem juntamente por Ele” (JND). A Criação “se mantém junta” pelo Seu poder. O Senhor Jesus sustenta “todas as coisas pela palavra do Seu poder” (Hb 1:3). Ele criou “todas as coisas” e Ele mantém “todas as coisas”. A lei da gravidade e todas as outras “leis” na Criação são Suas leis. Nada se move nem funciona sem Ele! Cristo é “o poder unificador da Criação, do contrário, o universo estaria em caos” (T. Bentley).

Os sinais em João

Não é surpreendente, portanto, que João chame a nossa atenção para o toque do Deus-Criador nos milagres (sinais) que Ele fez. Já no primeiro caso, transformando água em vinho, João observa: “Jesus principiou assim os Seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a Sua glória” (Jo 2:11). É notável que a primeira praga no Egito foi água transformada em sangue, enquanto que o primeiro sinal dado pelo Senhor Jesus foi água transformada em vinho. Devemos também notar o seguinte:

Aquele que disse: “Ajuntem-se as águas debaixo do céu num lugar” (Gn 1:9), veio andando sobre o mar para os Seus discípulos, embora o mar estivesse agitado por causa de um grande vento que assoprava (Jo 6:18-19). Mateus nos diz que “os que estavam no barco adoraram-no, dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus” (Mt 14:33). Numa ocasião anterior, os discípulos disseram: “Que Homem é este, que até os ventos e o mar Lhe obedecem?” (Mt 8:27). O Criador do vento e das ondas estava presente!

Aquele que disse: “Povoem-se as águas de enxames de seres viventes” (Gn 1:20, ARA), disse também: “Lançai a rede para o lado direito do barco, e achareis. Lançaram-na, pois, e já não a podiam tirar, pela multidão dos peixes” (Jo 21:6). Não é de se admirar que João dissesse: “É o Senhor”; ele evidentemente ainda se recordava de um milagre semelhante, ocorrido cerca de três anos e meio antes.

Aquele que disse: “Façamos o homem à nossa imagem”, e que “formou o homem do pó da terra” (Gn 1:26; 2:7), concedeu mobilidade a um homem “que, havia trinta e oito anos se achava enfermo” (Jo 5:5). Ele deu a vista a um homem que era “cego de nascença” (Jo 9:1) e deu vida a um homem de quem foi dito: “já cheira mal, pois é já de quatro dias” (Jo 11:39).

Muitas outras ilustrações da onipotência do Senhor como Criador são encontradas nos Evangelhos sinópticos. Por exemplo, aquele que disse: “Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a espécie” (Gn 1:11) disse à figueira: “Nunca mais coma alguém fruto de ti … e eles, passando pela manhã, viram que a figueira tinha se secado desde as raízes” (Mc 11:14, 20).

O Sábado

Em relação ao Seu trabalho devemos notar as palavras do Senhor: “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também” (Jo 5:17). Deus não guardava o sábado, e o Senhor Jesus continuou o Seu trabalho. Os judeus responderam a isso: “ainda mais procuravam matá-Lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era o Seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus” (Jo 5:18). Compare isto com Romanos 8:32: “nem mesmo a Seu próprio Filho poupou”. Israel é descrito como filho de Deus (Os 11:1; Ml 1:6), mas aqui é o “Seu próprio Pai”, enfatizando a Sua igualdade. Por isso Ele disse, logo em seguida: “E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo, para que todos honrem o Filho como honram o Pai …” (Jo 5:22-23).

O Primogênito

Mas, tendo dito isto, há pessoas que insistem em dizer que embora o Senhor Jesus exercesse o Seu poder na Criação, Ele era, Ele próprio, um ser criado. Para apoiar isto, citam Colossenses 1:15: “O qual é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”. Esta afirmação é usada pelas “Testemunhas de Jeová” para apoiar sua afirmação blasfema de que a primeira criação de Deus foi o Seu Filho. É importante, portanto, entender corretamente a palavra “primogênito”. O Senhor Jesus é descrito como o “primogênito”, em cinco ocasiões no Novo Testamento, que são: Rm 8:24; Cl 1:15, 18; Hb 1:6; Ap 1:5. A palavra é usada no plural em Hebreus 12:23: “igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus”. No Velho Testamento o título “primogênito” não era sinônimo de “primeiro a nascer”. Veja por exemplo I Crônicas 26:10-11: “E de Hosa, dentre os filhos de Merari, foram filhos: Sinri o chefe (pois embora não fosse o primogênito, seu pai o constituiu chefe). Hilquias o segundo, Tebalias … Zacarias”. A posição de José ilustra isto. Veja I Crônicas 5:1-2: “Quanto aos filhos de Rúben, o primogênito de Israel (pois ele era o primogênito; mas porque profanara a cama de seu pai, deu-se a sua primogenitura aos filhos de José, filho de Israel; de modo que não foi contado na genealogia da primogenitura, porque Judá foi poderoso entre seus irmãos, e dele veio o soberano; porém a primogenitura foi de José)”. Podemos acrescentar os casos de Jacó e Esaú, e de Efraim e Manassés (Gn 48:5-20), e fica claro pelos acontecimentos nas famílias patriarcais que a palavra “primogênito” se referia ao cabeça, ou filho principal, na família. Ela descrevia o relacionamento singular entre o pai e o filho assim indicado. No Salmo 89:27, Davi é descrito como “meu primogênito mais elevado do que os reis da terra”. Ele é supremo entre os monarcas terrenos. Isto se aplica ainda muito mais ao Senhor Jesus, que é “da casa e família de Davi”! Veja Lucas 2:4.

As “Testemunhas de Jeová” também usam Apocalipse 3:14: “o princípio da criação de Deus”, para apoiar sua doutrina abominável de que Cristo é um ser criado. Entretanto, a palavra “princípio” significa “originador”. Ele não é, como eles sugerem, “o primeiro a ser criado”, mas o Criador! Ele é o “originador” da Criação. Como o “primogênito de toda a criação”, o Senhor Jesus tem tanto a primazia quanto a preeminência sobre a Criação.

Se o Senhor Jesus é Deus Ele precisa ser onisciente 

Samuel, entre outros no Velho Testamento, aprendeu que “o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (I Sm 16:7), e Ana disse: “o Senhor é o Deus de conhecimento, e por Ele são as obras pesadas na balança” (I Sm 2:3), enfatizando a onisciência de Deus. O Senhor Jesus também demonstra essa característica, e é João quem enfatiza a Sua onisciência. 

Natanael perguntou: “De onde me conheces Tu?”, e quando o Senhor respondeu: “Antes que Filipe te chamasse te vi Eu, estando tu debaixo da figueira”, ele disse: “Rabi, Tu és o Filho de Deus; Tu és o Rei de Israel” (Jo 1:48-49). Novamente, em João 4:28-29: “Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?”. E de novo em João 11:14, Ele podia revelar o que acontecera em Betânia: “Lázaro está morto”.

A isto temos que acrescentar o domínio completo do Senhor Jesus sobre cada situação, Seu conhecimento perfeito de acontecimentos vindouros em Jerusalém, relativos à Sua morte e ressurreição, junto com Seu conhecimento perfeito de acontecimentos no então futuro distante, como demonstrado no Seu discurso no Monte das Oliveiras, tudo isso enfatiza a Sua onisciência.

Se o Senhor Jesus é Deus, Ele precisa ser onipresente

O próprio Senhor Jesus enfatizou isto em João 14:23: “Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra, e Meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada”.

A Sua onipresença é enfatizada em Mateus 18:20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles”. Compare com Marcos 16:20: “E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram”.

Se o Senhor Jesus é Deus, Ele precisa ser absolutamente Santo

Ana disse: “Não há Santo como o Senhor” (I Sm 2:2), e o Senhor Jesus, tendo dito aos Seus acusadores: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai”, continuou: “Quem dentre vós Me convence de pecado?” (Jo 8:46). A palavra “convence”, ou, “acusa”, indica que eles não somente eram incapazes de realmente acusá-lO de pecado perante um tribunal, mas também que Ele não era convicto de pecado na Sua própria consciência. Obviamente, era impossível Sua consciência acusá-lO, pois “nEle não há pecado” (I Jo 3:5). Compare com Tiago 1:13: “Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”. É muito importante lembrar que a tentação no deserto não tinha por finalidade provar se o Salvador podia ou não pecar, mas era para demonstrar que Ele não podia pecar.

Se o Senhor Jesus é Deus, Suas palavras precisam ser únicas

João escreve: “Aquele que vem de cima é sobre todos; aquele vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos … Porque aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus; pois não Lhe dá Deus o Espírito por medida” (Jo 3:31, 34). Portanto, não é surpreendente que os oficiais enviados para trazê-lo, explicaram seu fracasso com as palavras: “Nunca homem algum falou assim como este homem” (Jo 7:32, 46). Ele disse: “Eu falo do que vi junto de Meu Pai, e vós fazeis o que também vistes junto de vosso pai” (Jo 8:38).

Se o Senhor Jesus é Deus, a morte não pode retê-lO

Tomé, confrontado com as chagas mortais num corpo vivo, exclamou: “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo 20:28). A evidência cabal da Deidade do Senhor é a Sua ressurreição, que vindicou cada reivindicação feita por Ele. Se Ele não fosse Deus, Ele ainda estaria no sepulcro. Mas Ele “nasceu (ou veio) da descendência de Davi segundo a carne [a palavra ‘nasceu’ aqui significa ‘entrar numa nova condição’], declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos” (Rm 1:3-4).

Os apóstolos fizeram disso o carimbo oficial da sua pregação. Veja Atos 2:24-36: “… ao qual Deus ressuscitou … a este Jesus, Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai … Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio diz: Disse o Senhor ao meu Senhor … ”

Os cristãos hoje deveriam estar “aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo [‘nosso Grande Deus e Salvador Jesus Cristo’, JND]” (Tt 2:13). Nós reconhecemos com prazer a Sua Deidade enquanto aguardamos a Sua vinda, e Israel fará o mesmo na Sua subsequente manifestação: “Eis que este é o nosso Deus, a quem aguardávamos, e Ele nos salvará; este é o Senhor, a quem aguardávamos; na Sua salvação gozaremos e nos alegraremos” (Is 25:9).

Na eternidade os santos hão de contemplar o seu Redentor e dizer com Paulo: o “Filho de Deus, o qual me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim”. Talvez não seja fantasioso demais dizer que palavras semelhantes às bem conhecidas e apreciadas do seguinte hino serão ouvidas no Céu:

Fiel imagem do Infinito
Cuja essência oculta está;
Resplendor da eterna Luz,
O coração de Deus revelado.
Digno, ó Cordeiro de Deus, és Tu,
De que todo joelho se dobre diante de Ti.
(Josiah Condor)


Neste meio tempo, visto que Ele “é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (I Jo 5:20), devemos dar a Ele a nossa devoção total. Como o “verdadeiro Deus”, Ele não pode ter rival nos nossos corações e nas nossas vidas. Por isso João conclui sua I Epístola dizendo: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”.


© W. J. Watterson

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Fatos e mitos sobre o lenço dobrado no túmulo do Senhor Jesus

Circula na Internet, desde aproximadamente 2007, uma história que eu gostaria que fosse verdadeira. Ela traz uma explicação extremamente interessante e instrutiva para um pequeno detalhe mencionado no Evangelho de João, citando uma suposta antiga tradição hebraica como fonte, e nos informando que o “lenço dobrado” era uma forma muito clara do Senhor Jesus dizer: “Eu voltarei!”

Não tenho duvida nenhuma de que a aplicação (isto é, a volta iminente do Senhor Jesus) é absolutamente bíblica e verdadeira. Não tenho dúvida nenhuma da sinceridade das pessoas que estão repassando esta história. E repito: eu gostaria que a “tradição hebraica” citada na história fosse verdadeira. Infelizmente, porém, não existe nenhuma indicação confiável de que tal tradição jamais existiu.

A história

Bem, comecemos pelo começo! A suposta tradição judaica é explicada da seguinte forma:
O lenço dobrado tem a ver com o Amo e o Servo, e todo menino Judeu conhecia essa tradição. Quando o Servo colocava a mesa de jantar para o seu Amo, ele buscava ter certeza em fazê-lo exatamente da maneira que seu Amo queria. A mesa era colocada ao gosto de seu Amo e, o Servo esperava fora da visão Dele, até que o mesmo terminasse a refeição. O Servo não podia se atrever nunca, a tocar na mesa antes que o Amo tivesse terminado a sua refeição. Diz a tradição que ao terminar a refeição, o Amo se levantava, limpava os dedos, a boca, a sua barba, e embolava o lenço e o jogava sobre a mesa. Naquele tempo o lenço embolado queria dizer: "Eu terminei". No entanto, se o Amo se levantasse e deixasse o lenço dobrado ao lado do prato, o Servo jamais ousaria tocar na mesa porque, o lenço dobrado queria dizer: "Eu voltarei!".
Pesquisando a expressão “lenço dobrado no tumulo de jesus” (no Google em 23 de Setembro de 2013), os primeiros doze resultados (de aproximadamente 19.300) contém um vídeo (com duração de 26 minutos, que não ouvi), dois textos questionando esta suposta tradição (nos blogs Rocha Ferida e A Tenda na Rocha), e nove textos repetindo-a. Um detalhe: destes nove textos, sete são uma cópia palavra por palavra um do outro (não sei quem é a fonte), e os outros dois, apesar de acrescentarem algumas observações no decorrer no seu texto, também citam a tradição exatamente da mesma forma.

O problema

Apesar da multiplicidade de relatos, ninguém consegue apresentar nenhuma citação antiga que comprove esta “tradição hebraica”. Todos os nove textos citados acima, que defendem esta tradição, usam a expressão: “todo menino Judeu conhecia essa tradição” (alguns trocam o “essa tradição” por “a tradição”, e um blog diz: “todos até um menino Judeu conhecia [sic] esta tradição”). Todos afirmam que a tradição era bem conhecida, mas nenhum deles informa uma fonte antiga que confirma isto. Se era uma tradição hebraica bem conhecida, onde descobrimos isto? Existe alguma fonte judaica que confirme esta tradição antiga?

O blog Rocha Ferida, citado acima, cita a opinião da Profª Aila, do fórum CATES (um centro dedicado “ao ensino e ao estudo das Escrituras em seu contexto original ... por meio de professores, rabinos, teólogos e líderes da Igreja no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e em Israel”), afirmando que “não há nada na cultura judaica sobre tal história de guardanapo embolado ou dobrado”.

O site “Truth or Fiction” (um site bem conceituado na Internet, que se dedica a pesquisar e confirmar, ou desmentir, histórias que circulam por meios eletrônicos), afirma que não há registros desta história antes de 2007, e que um rabino consultado por eles (alguém que é rabino ortodoxo, estudioso judaico, e que mora em Jerusalém) afirmou que nunca ouviu falar desta tradição judaica!

Conclusão

Devido à completa falta de comprovação história, e algumas afirmações de estudiosos da história judaica, não posso crer nesta suposta tradição hebraica. Repito o que disse na introdução: confio na honestidade de quem promove a história, concordo com a aplicação feita (a volta iminente do Senhor Jesus Cristo) e gostaria que a tradição citada fosse verdadeira. Mas devemos ter um compromisso com a verdade, não com aquilo que nos agrada.

Tudo o que escrevi acima não quer dizer que desconsidero a importância deste detalhe nas Escrituras. O texto que circula na Internet usa a seguinte expressão: “A Bíblia reserva um versículo inteiro para nos contar que o lenço fora dobrado cuidadosamente e colocado na cabeceira do túmulo de pedra”, sugerindo que o detalhe é importante. Concordo plenamente com esta sugestão, e defendo categoricamente a importância de prestarmos atenção em todos os detalhes revelados na Bíblia, crendo que ela não contém nenhum palavra supérflua. Sendo assim, certamente há uma razão importante para o Espírito Santo ter levado João a acrescentar este detalhe, mas creio que esta razão está mais relacionada com a prova que Pedro e João tiveram da ressurreição do Senhor (se alguém tivesse roubado o corpo, não teria tido cuidado de dobrar o lenço à parte) do que com qualquer mensagem em código sobre a volta do Senhor (algo que Ele sempre anunciou com toda a clareza).

Não me agrada desmentir algo que me agrada; mas espero que este texto sirva para ajudar alguém.



© W. J. Watterson

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Tomé (poema)

Leia antes João 20:24-29



Disseram que viram meu Senhor [Jo 20:25]
Ah, como eu queria crer!
Mas ainda sinto forte a dor
De vê-Lo tanto ali sofrer [Lc 23:49]
    Naquela cruz.

Não pode ser; é um pesadelo!
Ainda me lembro dos gestos Seus,
E de como vim a conhecê-Lo;
Estar com Ele era estar com Deus
    Aqui na Terra.

Quanta coisa Ele nos ensinou!
Algumas vezes censurou-nos,
Mas a lição suprema que ficou
Foi o quanto Ele amou-nos [Jo 13:1]
    (Mesmo a mim!)

Como os demônios O temiam! [Mc 1:27, etc.]
E os doentes, vinham de todo canto. [Mc 1:32, etc.]
Até o vento e o mar Lhe obedeciam! [Mc 4:35-41]
(Quão grande foi o nosso espanto
    Aquela noite!)

Ah, como eu O amava…
Estava pronto a morrer por Ele, [Jo 11:16]
E mesmo enquanto O abandonava, [Mc 14:50]
Lá no jardim, queria estar com Ele.
    (Apesar do medo.)

Não é possível; é um pesadelo!
Ele não podia morrer! Não podia!
Ainda ouço o golpe seco do martelo, [Mt 27:35]
A zombaria imunda que dizia:
    “Desça da cruz!” [Mt 27:40]

Eu O vi morrer! Sim, eu vi! [Lc 23:49]
Eu ainda Te amo, Senhor,
Mas eu Te vi morrer! Eu vi!
E nem o tempo apagará a dor
    Que me oprime.

Disseram que viram meu Senhor…
Mas se eu não sentir o sinal dos cravos,
Sinais da Sua horrível dor;
Se não puser a mão no Seu lado
    Não crerei. [Jo 20:25]

Mas o que é isto? “Paz seja convosco [Jo 20:26]
É o meu Senhor! O mesmo que morreu!
Vejo Suas mãos, Seu lado, Seu rosto!
É o meu Deus! “Senhor meu, [Jo 20:28]
E Deus meu!

© W. J. Watterson — 10/05/2001

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Amor que se dá

Finalizando esta pequena trilogia sobre o amor do Senhor (veja parte um e dois), considere as únicas três vezes no NT que lemos do Seu amor associado à frase “deu-Se a Si mesmo”:

  • Em Efésios 5:25 lemos que “Cristo amou a Igreja, e a Si mesmo Se entregou por Ela”. A Sua Noiva e o Seu Corpo, comprados com a Sua própria vida.
  • Mas este amor não foi somente um amor por uma entidade coletiva; Ele também amou cada um dos indivíduos que compõem esta Igreja. No v. 2 do mesmo capítulo lemos: “Cristo nos amou, e Se entregou a Si mesmo por nós”.
  • Ah, mas leia isso: “O Filho de Deus, que me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim” (Gálatas 2:20)! Não conseguimos nos aproximar mais do coração de Deus do que isto; não conseguimos achar verdade mais impressionante no Universo todo!

É glorioso pensar no Seu amor sacrifical pela Sua Noiva, e precioso lembrar que este amor abrange cada indivíduo na Igreja. Mas meu coração descansa nestas palavras preciosas, poderosas, e pessoais: Ele (o próprio Filho de Deus) me amou (a mim, pobre e inútil), e a Si mesmo Se entregou por mim!

Um velho hino em Inglês capta este pensamento. Apresento uma adaptação livre abaixo.

A manjedoura, o humilde lar…
Senhor, vieste a mim buscar?
Tua agonia no jardim;
Senhor, será que foi por mim?

Eu louvo a Deus, pois foi por mim.
Imenso amor! Sem par! Sem fim!
Eis a razão do meu louvor:
Morreu por mim, meu Redentor!

A zombaria, a intensa dor,
Coroa amarga, cruz de horror;
No rosto o sangue carmesim…
Senhor, será que foi por mim?

As trevas que ninguém mediu;
A dor que só Jesus sentiu;
A morte … quão terrível fim!
Senhor, será que foi por mim?

A morte já vencida está,
E Cristo em breve voltará,
Virá buscar Seu povo enfim;
Virá buscar até a mim!

© W. J. Watterson