quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Pontualidade nas pregações

Há certa divergência de opinião entre os cristãos nas igrejas locais quanto à questão de encerrar as reuniões no horário ou não. Conheço irmãos espirituais e sinceros que entendem que deve haver liberdade para o Espírito Santo guiar nas reuniões, e por isso não devemos nos preocupar se o pregador passa cinco minutos do horário (ou quinze, ou trinta). Quero sugerir, porém, que o ensino dado em I Coríntios cap. 14 apresenta alguns princípios que devem ser levados em conta quanto a este assunto, e estes princípios deixam claro que, exceções à parte, é importante cumprirmos o que foi prometido, e não ultrapassarmos o horário estabelecido para o fim da reunião.



Aquele capítulo é o único trecho nas epístolas, creio eu, que discorre sobre o funcionamento prático de uma reunião de uma igreja local, então é fundamental considerar atentamente o que ele diz. Antes de olhar para aquele trecho, porém, convém deixar claro que estou pensando em situações onde a reunião tem um horário estabelecido para terminar (que é o normal aqui no Brasil). Se alguma igreja local entender que suas reuniões terão um horário para começar, mas nenhum horário previsto para terminar, obviamente a decisão dela está fora do assunto deste pequeno artigo.

Também quero enfatizar que não há nenhuma regra estabelecida na Palavra de Deus quanto ao tempo de duração das reuniões de uma igreja. Temos por convenção, aqui no Brasil, que uma reunião durará uma hora, mas isto não é uma regra (a reunião no domingo de manhã aqui em Pirassununga tem horário previsto de uma hora e meia; nas reuniões especiais que fazemos uma vez por ano, duas horas cada período). Portanto, não estou defendendo neste artigo que toda reunião deve durar uma hora, mas simplesmente que toda reunião que tem horário estabelecido para terminar, deve terminar dentro deste horário.

Quero apresentar algumas razões porque devemos ser zelosos neste aspecto, e depois considerar alguns argumentos contrários que costumam ser apresentados.

Por quê?

A principal razão para não ultrapassar o horário estabelecido é a instrução clara de I Co 14:40: “Faça-se tudo decentemente e com ordem”. Ser pontual nos horários de começar e encerrar é uma questão de ordem, de fazer as coisas ordeiramente, enquanto que desrespeitar o horário estabelecido para começar ou encerrar a reunião é sintoma de desorganização e falta de ordem. Meu pai (nunca me lembro dele passando do horário nas muitas pregações que fez) costumava dizer: “Devemos ser homens de palavra, inclusive na questão do cumprimento do horário”.

Além disto, devemos pensar naqueles que estão nos ouvindo. Eu não conheço as circunstâncias de cada um que está presente. Pode haver alguém que precisa pegar um ônibus, uma mulher que precisa preparar a janta para o marido incrédulo, etc. Quando ultrapasso o horário que havia sido combinado, posso estar atrapalhando os planos de muitos dos meus ouvintes.

Quando há outros que irão falar depois de mim, devo também preocupar-me em não ser egoísta, roubando tempo do meu irmão.

Mas …

Por outro lado, dizem alguns, não é bom que o pregador seja limitado; ele deve ter liberdade para falar como (e por quanto tempo) o Espírito o guiar. Uma preocupação excessiva com o relógio pode tolher esta liberdade.

Entendo este argumento; mas não devemos esquecer que em I Coríntios 14:27-40 o próprio Espírito colocou limites diante de todo aquele que deseja falar nas reuniões das igrejas locais. Quem tinha dom de línguas somente poderia se levantar se houvesse um intérprete; a quantidade de profetas que falariam é limitada (“dois ou três”, v. 29), e se um profeta recebesse uma revelação enquanto outro estava falando, deveria esperar o primeiro terminar, e depois se pronunciar. As irmãs também são instruídas a não falarem nas reuniões. Diz o v. 32 que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”. Alguns podem ter a ideia de que a “liberdade do Espírito” quer dizer que devemos falar tudo que vem ao nosso coração para dizer. Mas não podemos falar isto quando lembramos que nosso coração é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Devemos lembrar do ensino dado no começo do capítulo: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (v. 15).

Considerando todos estes detalhes, veremos que aquele que se levanta para falar em público deve estar consciente de ser guiado pelo Espírito Santo, mas que esta direção não será prejudicada pelo fato dele estar atento a certas regras e limites. Ser guiado pelo Espírito Santo não é perder noção do tempo: é falar com sinceridade tudo aquilo que Deus nos revelou previamente, mas com decência e com ordem.

Outro argumento apresentado contra estas coisas é que os salvos não deveriam se importar em ficar mais tempo ouvindo a Palavra de Deus. Concordo; mas quando um grupo de cristãos está ouvindo a Palavra de Deus ministrada por outro irmão, há tantas variáveis nesta equação! Será que o pregador está em plena sintonia com o Senhor? Será que todos os ouvintes estão recebendo a palavra dele, como sendo a palavra do Senhor? Cada coração presente (do pregador e de cada ouvinte) é uma variável que só o Senhor conhece. Quando eu prego, preciso lembrar que sou falho e limitado, e muitos dos meus ouvintes estão na mesma situação. Insistir em ir até o final daquilo que eu pretendia falar talvez não será proveitoso. O espírito, na verdade, pode estar pronto, mas a carne é fraca.

Conclusão

Quando reunimos com um horário estabelecido para iniciar e encerrar a reunião, é bom sermos zelosos em respeitar estes horários. Certamente toda regra tem sua exceção, mas quero sugerir que todo pregador deve lembrar que tudo deve ser feito decentemente e com ordem, e que uma atitude relaxada da parte dele pode comprometer o aproveitamento do ensino transmitido.

Antes da pregação ele deve pensar no tempo que provavelmente terá ao seu dispor, e levar isto em consideração ao estudar o assunto ou trecho que pretende expor.

Enquanto prega, ele deve estar atento à passagem do tempo. Se ele prega sem esboços e anotações (que, por sinal, sugiro ser a prática ideal), é bem possível que ele gaste mais tempo num determinado tópico do que pensava, conforme o Espírito Santo vai trazendo à memória dele versículos conhecidos, ou paralelos e aplicações já estudadas, mas que ele não tinha intenção de apresentar naquela reunião. Se isto ocorrer, ele terá que abreviar algum outro tópico (ou deixá-lo para outra ocasião).

Quando o final da reunião se aproxima (se ele for o último a pregar), ele deve lembrar que possivelmente algum irmão queira escolher um hino, e que certamente seria bom encerrar a reunião com oração. Ele deve, portanto, deixar tempo suficiente para isto. Se ele não conseguiu falar tudo que pretendia falar, ele pode lembrar que já falou bastante, e que mais importante do que falar tudo que pretendia falar, é falar alguma coisa que será proveitosa.

Que cada pregador seja consciente das limitações do ser humano (que afetam cada ouvinte, e afetam ele também), e mostrar consideração pelos seus ouvintes em manter-se dentro do horário estabelecido. Que cada ouvinte seja paciente com o pregador que abusa do horário, procurando concentrar-se na palavra anunciada. E que Deus apresse o dia glorioso quando estaremos na presença dEle, e todos transformados, poderemos nos ocupar inteiramente com Ele, livres das fraquezas e falhas desta carne (e dos relógios).

Terei prazer em receber comentários à favor ou contra o que expus aqui, lembrando sempre que toda regra tem exceção.

© W. J. Watterson

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